
O céu sempre disse “explique-me se for capaz”
Maio 27, 2009Olhar para cima, para o céu. Em todas as épocas, em todas a culturas este gesto sempre foi repleto de significados, despertou sentimentos que vão além da simples curiosidade, que não são apenas lúdicos. Olhar para o céu tem algo que é misteriosamente fascinante, que excita o imaginário de todas as pessoas pelas mais variadas razões. Este deslumbramento talvez justifique, mais do que qualquer outro argumento, porque tanto esforço já foi gasto nas infinitas tentativas de desvendar o céu e seus mistérios. Talvez seja simplesmente porque o céu sempre esteve lá, constantemente nos desafiando, “expliquem-me se forem capazes”. E sempre este desafio foi aceito e sempre, do olhar das civilizações mais primitivas às mais complexas das teorias cosmológicas, tem-se o sentimento que ainda falta algo para ser entendido. Analisando algumas das formas com que a ciência interpretou o céu é possível ver como ela própria, a ciência, cresceu e amadureceu.
O grego Aristóteles (384-322 DC) criou suas explicações para a estrutura do universo. Ele simplesmente olhou para cima, para o céu. Observou que a lua, os planetas, o sol e as estrelas giravam em torno da Terra que estava imóvel no centro de tudo. Como estes corpos todos não poderiam estar pendurados no nada, ele criou um modelo de esferas concêntricas que sustentavam cada uma das coisas que giravam em torno da Terra, o modelo geocêntrico. Mais tarde a igreja católica se apropriou deste modelo talvez por mera conveniência, pois se a Terra era o centro, no centro do universo estavam também a igreja, o papa e o poder. O modelo aristotélico foi transformado em dogma e qualquer crítica a ele em heresia.
No começo do século XVII a heresia começa a adquirir contornos de ciência. Giordano Bruno defende o modelo heliocêntrico, desafiando a igreja. O sol seria o centro do universo e a Terra apenas um dos corpos que giravam em torno dele. Não teve como se defender e foi parar nas fogueiras da inquisição. Copérnico, um matemático, calculou as órbitas dos planetas girando em torno do sol e conseguiu se safar. O heliocentrismo estava amadurecendo mas faltavam as evidências. Galileu Galilei (1564-1642) achou que seria capaz de ganhar o braço de ferro com a igreja. Os holandeses acabavam de trazer para a Europa uma grande novidade que passou a ser usada nas navegações: a luneta. Galileu ao invés de apontá-la para o mar ou as estrelas, apontou-a para os planetas. Ele observou que Júpiter tinha luas girando em torno dele e que elas furavam as esferas de Aristóteles. Ele achou que tinha a prova, a evidência científica para retirar a Terra imóvel do centro do universo e colocar o sol em seu lugar e convidou membros da igreja a usarem a sua luneta e ver as luas girando em volta do planeta.
Aí vem o famoso diálogo (lenda ou não pouco importa) onde Galileu achou que finalmente demonstraria para a igreja que o modelo cristão do universo estava literalmente furado.
” E então? Os senhores não acreditam no que seus olhos vêm? Provoca e pergunta Galileu.
“Acreditamos no que nossos olhos vêm quando lemos os textos sagrados” foi a resposta.
De fato, no embate entre o dogma religioso e a ciência o que estava em questão era qual o critério que torna uma idéia verdadeira: é verdade porque creio ou é verdade porque observo e explico. Muitas descobertas científicas foram feitas a partir daí, mas também foi possível identificar o amadurecimento de um método que nos traria à ciência contemporânea, o método científico, onde prevalece a razão, a noção de que a fé e a ciência são duas coisas totalmente diferentes e, sem nenhum julgamento de valor, têm verdades diferentes. O Homem passou a precisar menos de Deus para entender o céu.
Com o tempo o método científico, e a lógica cartesiana, se impôs e foi sistematizado. O cientista formula hipóteses (eu acho que…) que são testadas em experimentos ( eu observo que…) e demonstra uma tese ( eu concluo que…).
Mais tarde, físico inglês Isaac Newton dá um outro passo importante tentando desvendar os mistérios do céu. Sempre baseado no método científico, ele se vê obrigado a ir além criando novos e poderosos instrumentos para identificar a verdade científica usando a matemática. Assim como Galileu usou a luneta para mostrar o que era verdade, Newton cria entre outras coisas o cálculo diferencial e integral para construir a sua teoria para a estrutura do universo. A Teoria da Gravitação Universal explica e calcula como e porque os corpos celestes valseiam alegremente pelo espaço em aparente e perfeita harmonia. Mais uma vez a ciência amadurece nos seus recursos para estabelecer o que considera verdadeiro. Mesmo que não seja possível observar experimentalmente um fenômeno, se for possível descrevê-lo através de um modelo matemático consistente ele pode merecer o atestado de verdadeiro. Newton não pode colocar os planetas numa balança para medir suas massas mas pode calculá-las, não inventou nenhum aparelho para medir a força da gravidade mas demonstrou que ela existe, calculou sua intensidade e assim por diante. E foi por aí que a ciência seguiu em frente e explicou muito do que é o universo no que ele tem de mais aparente, de macroscópico.
Até que…até que chega o século XX e tudo se complica muito por várias razões. Einstein derruba os alicerces da física newtoniana com suas teorias da relatividade onde o tempo e o espaço deixaram de ser absolutos e passam a depender da velocidade com que os corpos se deslocam. O espaço cartesiano de três dimensões vai para o lixo, o tempo é a quarta dimensão do universo (Newton deve ter estremecido em seu túmulo). Em 1920 se observa que o universo está se expandindo, as galáxias se afastam uma das outras desde quando tudo começou há 15 bilhões de anos com o Big Bang, a grande explosão primordial. Mais uma verdade derrubada, a do universo estático, imutável.
Se percebeu também que para entender o universo não bastava observar o que é grande e visível. Foi preciso começar a desvendar os mistérios do átomo para entender o céu. Não bastou, foi preciso entender o que são e como se comportam as partículas sub-atômicas que formam os átomos e são a verdadeira matéria prima do universo. Max Plank, seguido por outros, cria uma outra revolução, a mecânica quântica. Ela acaba com a idéia de um universo determinístico e ordenado, tudo passa a ser probabilístico. Mostra que é luz pode se comportar como onda ou como partícula e que é impossível determinar a posição exata de uma partícula, mas apenas qual a probabilidade dela estar em determinada posição. É como dizer que é impossível precisar onde as coisas estão. Mostraram também que é impossível extrair informações absolutas de um objeto e que as propriedades de um sistema, não lhe pertencem pois só existem porque são observadas. A mecânica quântica e suas formulações probabilísticas, que são do início do século XX, revolucionaram a percepção do que é a matéria e o céu. Einstein tentou em vão unificá-la com a Teoria da Relatividade e nunca aceitou que o imprevisível das probabilidades é o que rege o universo. Deus não joga dados disse com ironia. A mecânica quântica é tão importante para a ciência que alguns físicos como Weinberg, sugerem que ela é a teoria final da física!
Como se chegou a tudo isso e muito mais? Principalmente fazendo contas, pura matemática, papel e lápis. Muitas dessas “descobertas” do início do século esperaram décadas para serem comprovadas experimentalmente porque não havia tecnologia para viabilizar os experimentos, faltava a luneta! Esta foi a época de ouro da chamada física teórica. Agora mais para o final do século os avanços tecnológicos permitiram um grande número de comprovações experimentais. O Big Bang proposto nos anos 20 só foi confirmado em 1965 e a fila ainda é grande . Outro exemplo, os europeus estão gastando muitos milhões de dólares para construir um aparelho com dezenas de quilômetros de circunferência capaz, em princípio, de demonstrar a existência de uma partícula prevista desde a década de 70, os Bósons de Higgs. Detalhe, eles têm necessariamente que ser achados porque, segundo a ciência contemporânea, sem eles a matéria e portanto o universo e tudo que há nele não poderia ter se formado. Este exemplo é emblemático. A que ponto chegou o amadurecimento da ciência! Antes o universo mostrou para a ciência o que era verdadeiro. Neste caso, dos Bósons, a ciência é que diz ao universo como ele tem que ser para ser verdadeiro.
Agora talvez mais pretensiosa que madura, a ciência continua sua marcha para explicar o céu e as últimas novidades continuam surpreendendo. Ficou-se sabendo o tamanho dos mistérios do céu. Todos os corpos brilhantes, tudo que é possível ser visto é apenas 0,5% de tudo que há lá em cima. A matéria escura, buracos negros, estrelas mortas, etc, são uns 3,5%. Não se sabe absolutamente nada sobre os 96% restantes do céu.
Einstein e sua Relatividade estão ficando velhos! Segundo a sua Teoria da Relatividade Geral, os campos gravitacionais provocam uma curvatura do continuun espaço/tempo, é isso, o espaço e o tempo são curvos, deformados pela ação da gravidade. A luz é a velocidade máxima do universo e para um corpo se deslocando com velocidade próxima à dela, o tempo passa mais lentamente, se dilata, e o espaço se contrai permitindo viagens no tempo apenas para o futuro. Note-se que isto já foi verificado experimentalmente em aceleradores de partículas. Pela Teoria das Super Cordas proposta em 1991 por J. Gott, podem existir no céu certas anomalias em campos gravitacionais que criam atalhos por onde o tempo pode cortar caminho. Ela vai além da Relatividade, seus campos gravitacionais seriam de tal magnitude, que a curvatura do espaço/tempo previstas por Einstein seriam apenas umas dobrinhas! Um objeto próximo de uma Super Corda e sob influência de seu campo gravitacional poderia se deslocar com velocidades maiores que a da luz, viajando também para o passado. Uma heresia para a Relatividade! Agora é a vez de Einstein se revirar no túmulo, como se não bastasse ter que engolir a Mecânica Quântica, estas tais Super Cordas embrulham o seu entendimento do céu onde tudo era apenas relativo.
O Big Bang também está em questão. A Teoria da Inflação de 1979 afirma que ele ocorreu um pouquinho depois de uma primeira expansão colossal e homogênea. Ele não seria mais o início de tudo. Desta teoria decorrem também tentativas de explicações para a energia negativa, escura do céu aquela que não é detectável. Para a Teoria da Inflação ganhar consistência, precisa ser descoberta uma quinta força no universo além das quatro forças já conhecidas, as duas nucleares, a gravidade e a eletromagnética. Detalhe, Aristóteles afirmava que abaixo da esfera lunar tudo era composto pelos quatro elementos essências, água, terra, ar e fogo. Mas deveria haver um quinto elemento que comporia a esfera das estrelas, a quinta essência. Assim foi chamada a nova quinta força que a ciência precisa achar para explicar o céu, ou que o céu precisa ter para satisfazer a ciência.
O russo Andrei Linde subverte mais ainda o entendimento do céu afirmando que o universo não é único, ele seria como um imenso caldeirão borbulhando com infinitos Big Bangs acontecendo simultaneamente. O nosso Big Bang e portanto nosso universo seria apenas um entre infinitos deles. Isto é tão revolucionário para o entendimento do céu quanto foi Galileu e sua luneta afirmando que a terra é apenas um corpo a mais girando em torno do sol. Também resgata uma outra idéia de Aristóteles, a do cosmos eterno, onde não existe o momento da criação.
A Ciência parece ter ido além de seu próprio alcance , ela não é mais capaz de mostrar o que é verdadeiro pois o próprio conceito de verdade parece desnecessário. O que fazer com os universos simultâneos de Linde ou com as Super Cordas? Observá-los? Comprová-los? Como? Talvez seja melhor crer ou não crer que eles existam, eles serão sempre e apenas uma probabilidade…
De tão madura a ciência precisa se recriar para ter em que acreditar com uma nova percepção de si mesma. O tempo das certezas, do absoluto parece ter ficado para trás e ficamos com um lodaçal probabilístico de incertezas para explicar o céu. Também ficou para trás o tempo em que a lógica do cidadão comum era capaz de entender o que a ciência falava, hoje ela só se faz entender pelos “iniciados” que passaram a ser nossos intermediários no entendimento do céu. E fica a dúvida, será que não foi sempre assim, em todas as épocas?
Eles, os iniciados, se enterram em laboratórios, equações, livros e maquinarias para ver o céu, mas nós continuamos com o simples gesto de olhar para cima e continuamos misteriosamente deslumbrados.

